Os comentadores da Bíblia com frequência equiparam a
estrutura paralela dos 7 selos em Apocalipse 6 com o discurso profético de
Jesus nos Evangelhos sinópticos. Beasley-Murray fala por muitos quando diz:
"Nenhuma passagem no Novo Testamento está mais intimamente relacionado a
este elemento [os selos] dentro do livro do Apocalipse que o discurso
escatológico dos Evangelhos, Marcos 13 e as passagens paralelos (Mat. 24 e Luc.
21)".1 Colocando as duas sequências proféticas em forma paralela, elas
mostram que os 7 selos apresentam as mesmas características e a mesma ordem
consecutiva do o discurso do Monte das Oliveiras.
Esta comparação mostra que devemos considerar os selos
consecutivos em Apocalipse 6 como a exposição ulterior de Cristo de seu
discurso anterior no que tinha resumido a seus discípulos o que lhes
aconteceria durante sua missão no mundo. Isto significa que os selos predizem
não só os juízos do tempo do fim mas também os juízos messiânicos durante toda
a época da igreja. Em Mateus 24 Jesus adotou o estilo apocalíptico de Daniel de
repetição e ampliação. Duas vezes Jesus começou seu esboço com sua própria
geração e depois passou rapidamente adiante na história até o fim da era da
igreja, como se pode ver por Mateus 24:1-4 e 24:15-31. Jesus anunciou que as
guerras que viriam, as fomes, as perseguições e a apostasia não precederiam
imediatamente a sua volta:
"Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos
assusteis; pois é necessário que primeiro aconteçam estas coisas... E cairão a
fio de espada e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será
pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem" (Luc.
21:9, 24).
Jesus lhes advertiu especificamente contra uma expectativa
iminente:
"Respondeu ele: Vede que não sejais enganados; porque
muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu! E também: Chegou a hora! Não os
sigais" (Luc. 21:8).
Se os selos desenvolvem em forma adicional Mateus 24, então
os selos igualmente se estendem sobre os séculos do período da era cristã. Esta
perspectiva histórica dos selos expressa o fluxo estrutural do livro do
Apocalipse da época histórica até o juízo final.
O Significado da Era
Cristã
É instrutivo refletir sobre o significado das predições de Cristo
de guerras, desastres na natureza, perseguições dos santos e uma crescente
apostasia da verdade, o amor e a moral. Os selos de Apocalipse 6 assinalam o
significado de toda a história ao colocá-los em uma perspectiva do tempo do
fim, isto é, à luz dos destinos eternos. Tanto a igreja como a história mundial
recebem seu significado transcendental da soberania e os juízos de Cristo (cap.
5). Ele coloca a história do homem no contexto mais amplo do conflito
espiritual entre Deus e Satanás e seus respectivos princípios de governo. O
apóstolo Paulo reconheceu isto:
"Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os
apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos
tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens" (1 Cor. 4:9).
O crisol da história humana é o meio pelo qual Cristo
santifica os que aceitam seu senhorio e testemunho de verdade sob as
circunstâncias mais adversas. Por outro lado, demonstra sobre a terra os
amargos frutos da rebelião contra ele, perdoando as vistas de seus inimigos,
desde Caim para frente. Ellen White oferece esta profunda revelação:
"Satanás está constantemente em atividade, com intensa
energia e sob mil disfarces para representar falsamente o caráter e governo de
Deus. Com planos extensos e bem organizados, e com poder maravilhoso está ele a
agir para conservar sob seus enganos os habitantes do mundo. Deus, o Ser
infinito e todo sabedoria, vê o fim desde o princípio, e, ao tratar com o mal,
Seus planos foram de grande alcance e compreensivos. Foi o Seu intuito não
somente abater a rebelião, mas demonstrar a todo o Universo a natureza da
mesma. O plano de Deus estava a desdobrar-se, mostrando tanto Sua justiça como
Sua misericórdia, e amplamente reivindicando Sua sabedoria e justiça em Seu trato
com o mal".2
Cada calamidade proporciona uma nova oportunidade para que o
homem caído se volte para Deus. Cristo ensinou esta lição a partir dos
acontecimentos de seu próprio tempo (ver Luc. 13:1-5; também João 9:2, 3).
No passado do Israel, Deus tinha enviado quatro juízos sobre
seu povo do pacto, que era rebelde: guerra, praga, fome e morte (ver Lev.
26:23-26; Deut. 32:23-25, 42 ["minhas setas"]; Ezeq. 14:12-14, 21).
Mas esses juízos nunca foram o juízo final de Deus. Serviram como juízos
preliminares, para motivar seu povo rebelde a voltar-se para Deus (ver Osé.
5:14, 15; 6:1-3). Quanto a isto também o Antigo Testamento é um livro de lições
para a igreja (1 Cor. 10:11 ).
Cristo deseja que a igreja compreenda que os juízos
vindouros ainda estão limitados por sua vontade. Deus ainda está no comando
mesmo que seus filhos morram como mártires. Também coloca limites ao cavaleiro
amarelo sob o quarto selo (Apoc. 6:8). De igual maneira, Apocalipse 12 e 13
afirmam que o anticristo recebe não mais de 3 ½ tempos proféticos, enquanto que
à última rebelião é concedida apenas "uma hora" (Apoc. 17:12).
Apocalipse 5 ensina que a responsabilidade pelos juízos de
Deus foi transferida a Cristo. Os selos apocalípticos, e por extensão as
trombetas e as pragas, todos devem entender-se como juízos messiânicos. O
Cristo entronizado é o Senhor da história, ou como Leão de Israel ou como o
Cordeiro de Deus (Apoc. 5:5, 6). Isto significa que os que rechaçam o sangue do
Cordeiro terão que enfrentar a "ira do Cordeiro" (Apoc. 6:16, 17).
Pela fé em Cristo os homens podem confiar que a era cristã tem significado,
porque leva a humanidade adiante, a seu destino glorioso.
Desenrolando o Livro
da Providência
Em Apocalipse 6, os selos desenvolvem a visão da coroação de
Cristo como o Cordeiro imolado que aparece no capítulo 5. O Cordeiro só abre os
selos do rolo da escritura da providência. Sempre que Cristo abre um dos 4
primeiros selos, um dos 4 serafins diz "como com voz de trovão":
"Vem e vê!" Em resposta aparecem 4 cavalos em forma consecutiva, cada
um com uma cor diferente: branco,
vermelho, preto e amarelo. Estes cavalos levam cavaleiros diferentes. São enviados à terra um depois que o outro cumpriu sua missão atribuída. Entendemos que cada cavalo se une aos prévios já enviados, de maneira que finalmente os 4 cavalos cavalgam juntos sobre a terra até o fim da era cristã.
vermelho, preto e amarelo. Estes cavalos levam cavaleiros diferentes. São enviados à terra um depois que o outro cumpriu sua missão atribuída. Entendemos que cada cavalo se une aos prévios já enviados, de maneira que finalmente os 4 cavalos cavalgam juntos sobre a terra até o fim da era cristã.
Isto quer dizer que os primeiros 4 selos ainda não estão
completos, inclusive no tempo do fim. João está em dívida com o Antigo
Testamento para esta linguagem figurada de cavalaria celestial. Em suas visões,
Zacarias descreve 4 cavalos com cores diferentes (Zac. 1:8-17 e 6:1-8). Isto
indica que devemos considerar o significado dos 4 cavalos simbólicos do
Zacarias antes de interpretar os 4 cavaleiros apocalípticos.
Em Zacarias 1 atribuiu-se aos cavaleiros o dever de
inspecionar o mundo gentio com o fim de observar qualquer movimento para
restaurar Jerusalém e Judá (1:10). Este relatório foi frustrante: nada estava
acontecendo (v. 11). Entretanto, Deus assegura ao profeta que apesar das
aparências contrárias, ele estava trabalhando por Jerusalém e Sião com grande
zelo (v. 14), enquanto ao mesmo tempo estava irado contra as nações (v. 15). O
Deus do Israel voltaria para Sião, e seu templo e sua cidade seriam
reconstruídos. Seriam estabelecidas paz e prosperidade permanentes (8:12).
No capítulo 6, o profeta apresenta o complemento de sua
primeira visão. Esta vez vê 4 cavalos diferentes com carros de guerra
[merkaba], cada um enviado pelo Deus do céu em todas as direções da terra, para
levar a cabo o plano redentor de Deus para Jerusalém. O anjo que interpreta,
explica que os 4 carros significam "os quatro ventos dos céus" que
são enviados como ministros do Senhor para cumprir a vontade redentora de Deus
em todo mundo hostil (Zac. 6:5; cf. Sal. 104:3, 4; Jer. 49:36; Isa. 66:15).
A "terra do norte", ou Babilónia, é escolhida como
um lugar exemplar onde o Deus de Israel deseja governar e estabelecer seu
descanso (Zac. 6:8). Isto significa que os 4 carros de guerra da visão foram
enviados ao mundo com uma missão dupla: (1) submeter todos os poderes políticos
do mundo à vontade do Deus de Israel (ver Ag. 2:7-10, 20-23); (2) reunir a
todos os crentes israelitas e gentios em Jerusalém e no monte Sião (Zac. 8:8,
20-23). O propósito fundamental é a realização do plano de redenção de Deus e a
restauração da verdadeira adoração (vs. 22, 23).
No Apocalipse, Cristo envia seus cavaleiros apocalípticos à
terra, desta vez com uma missão do novo pacto (Apoc. 6:2-8): para conquistar os
corações humanos a Cristo com o arco e as flechas do evangelho, e para levar a
humanidade à reflexão por meio de alguns juízos limitados como antecipações do
castigo final de Deus por sua rebelião contra Cristo.
O Primeiro Selo
"Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro
com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer"
(Apoc. 6:2).
O cavalo branco leva um cavaleiro com um arco e uma coroa de
vencedor, saindo como "vencendo e para vencer". Alguns expositores
modernos interpretam este cavaleiro apocalíptico como símbolo da avidez do
homem para conseguir poder e domínio mundial. O argumento é que os 4 cavaleiros
de Apocalipse 6 iniciam juízos, de modo que parece "inapropriado ao
contexto" ver aqui a conquista de Cristo por meio do evangelho. Os cavalos
se usavam para liberar a guerra. Entretanto, cada símbolo deve receber seu
significado de seu próprio contexto e nele podemos descobrir a natureza dessa
guerra.
Os selos desenvolvem mais amplamente a visão do trono de
Apocalipse 5, onde Cristo é descrito como o Senhor ressuscitado, simbolizado
pelo Leão que tinha triunfado (Apoc. 5:5). Estabeleceu sua vitória por sua
morte na cruz, simbolizado pelo Cordeiro imolado (V. 6). Depois enviou os
discípulos, dando-lhes autoridade, para ir a todas as nações e fazer discípulos
(Mat. 28:19). Deu-lhes o poder do Espírito Santo para conquistar para ele, até
os fins da terra (At. 1:8), assim como conquistou a seu "inimigo"
Saulo perto da porta de Damasco (cap. 9). Continua conquistando através do
poder do evangelho e a "espada de dois fios" de sua Palavra (Heb.
4:12), com o fim de ganhar para seu reino os corações sinceros de homens e
mulheres até o fim do tempo de prova.
Além disso, a estrutura quiástica do Apocalipse coloca a
Cristo como o Guerreiro em Apocalipse 19:11-16, como a contraparte
significativa e como a consumação do tempo do fim de Apocalipse 6:2. As
profecias messiânicas do Antigo Testamento representavam ao Rei davídico como
conquistando com arco e flechas (ver Sal. 45:4, 5; Deut. 32:23; Hab. 3:8-11;
Sal. 7:12; 21:12). Cristo anunciou que veio trazer a "espada" para
todos os que rechaçam sua paz (Mat. 10:34; Luc. 12:51-53). Portanto podemos
interpretar o cavalo branco do primeiro selo como o cavalo do evangelho que
oferece a todos os homens a justiça perfeita de Cristo. Este cavaleiro
evangélico ainda conquista homens e mulheres ao redor do globo (1 João 5:4, 5).
A última confissão de fé de Paulo ilustra o poder do cavaleiro do cavalo
branco: " Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé"
(2 Tim. 4:7).
O Segundo Selo
"Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser
vivente dizendo: Vem! E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro,
foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos
outros; também lhe foi dada uma grande espada" (Apoc. 6:3, 4).
Os três seguintes cavaleiros apocalípticos têm autoridade
para trazer consigo juízos severos sobre a terra. Não devemos considerar estas
incursões que produzem morte, fome e praga como os resultados das guerras
seculares. Durante séculos houve paz no Império Romano, a "pax
romana", desde Armênia até a Espanha.
O cavalo vermelho representa o espírito de oposição ao
cavaleiro do evangelho, ou guerra contra o povo de Cristo. Jesus tinha
advertido que o testemunho de seus seguidores causaria uma oposição encarniçada:
"Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, senão
espada" (Mat. 10:34; ver a conexão com os vs. 32 e 33 e Luc. 12:51-53).
Isto foi o que experimentou a igreja apostólica, como pode ver-se nas cartas de
Cristo às igrejas em Esmirna e Pérgamo (Apoc. 2:10, 13).










