14 de setembro de 2009

APOCALIPSE: ABERTURA DO 3º SELO, CAVALO PRETO

“Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizer: Vem! E olhei, e eis um cavalo preto; e o que estava montado nele tinha uma balança na mão. E ouvi como que uma voz no meio dos quatro seres viventes, que dizia: Um queniz de trigo por um denário, e três quenizes de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.” (Ap. 6:5-6).
A abertura do terceiro selo revela o surgimento de um cavalo preto. O seu cavaleiro tem uma balança na sua mão que serve para medir as rações alimentares e representa por consequência a fome, dentro do espírito do apresentado pelo profeta Ezequiel que diz: “Filho do homem, eis que quebrarei o báculo de pão em Jerusalém; e comerão o pão por peso, e com ansiedade; e beberão a água por medida, e com espanto.” (Ezeq. 4:16).
O cavalo preto foi antecedido pelo cavalo vermelho, tal como a fome é precedia pela guerra. A voz que fala surge do meio de quatro seres viventes e é por consequência a voz do Cordeiro, pois o Cordeiro encontra-se justamente rodeado (Ap. 5:6) pelos quatro seres viventes. A voz que se ouve é d´Aquele que está assentado sobre o trono para julgar ou seja o Cordeiro; a justiça é temperada com a misericórdia. A voz ordena de facto: “E ouvi como que uma voz no meio dos quatro seres viventes, que dizia: Um queniz de trigo por um denário, e três quenizes de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho”. Esta restrição é de admirar!
Normalmente, a oliveira e a vinha, têm raízes mais profundas que os cereais, e por isso resistem melhor à seca e resistem melhor às intempéries que o trigo e a cevada. Mais ainda, o grão, óleo e vinho são geralmente associados na Bíblia para representar os três produtos da terra de Israel (Deut. 11.14,23; 28:51; 2ª Crónicas 32:28; Neemias 5:11, etc.). Esta restrição não é natural, não é provocada pela seca e indica que a linguagem é simbólica, convida por essa razão a uma interpretação de ordem espiritual.
Reconheçamo-lo, a aparência do terceiro ser vivente com rosto humano (Ap. 4:7) orienta-nos para esta interpretação, repito, de carácter simbólica/espiritual. Ao centro e em contraste com os outros seres com aparência de “animais” (leão, novilho e águia), o rosto humano representa a dimensão espiritual por oposição ao animal, se quisermos, o estado natural e não religioso (ver Daniel 4:16;34; cf. 7:8,13). A fome que aqui é tratada, refere-se a uma fome espiritual.
Podemos ainda, fazer uma distinção por um lado o grão e por outra o óleo e o vinho, concordaremos que a aplicação simbólica é separada, se interpretarmos cada um dos três produtos no sentido espiritual dado nas Escrituras teremos:
· O grão do qual se faz o pão simboliza a Palavra de Deus (Deut. 8:3; Mat. 4:4; João 6:46-51; Neemias 9:15; Salmo 146:7).
· O óleo simboliza o Espírito de Deus (Salmo 45:8; Zacarias 4:1-6).
· O vinho simboliza o sangue de Jesus Cristo (Lucas 22:20; 1ª Cor. 11:25).
A mensagem do terceiro selo significa que a fome e a seca de ordem espiritual dizem respeito à carência provocada por não haver Palavra de Deus, no sentido que esta não será servida/apresentada aos povos como deveria de ser. No seu significado tem também a mensagem de que o Espírito Santo e o poder do sangue de Jesus continua a exercer forte influência entre os genuinamente fiéis a Deus. Preciosa mensagem de revelação que o Espírito faz aqui ao profeta João na Ilha de Patmos, apesar de todas as vicissitudes e perseguições para arrancar da terra dos viventes a Palavra de Esperança, a Bíblia, o Senhor vela para que Satanás não triunfe com o seu plano malévola de cobrir a Terra com a sombra de filosofia/religião pagã e tantos outros conceitos: “Não podemos saber quanto devemos a Jesus pela paz e protecção de que gozamos. É o poder de Deus que impede que a humanidade passe completamente para o domínio de Satanás.” Conflito dos Séculos, p.33.
Podemos compreender o porquê dos símbolos serem separado em dois, eles correspondem aos dois componentes, humano e divino, da aliança. Pelo lado humano, a Igreja perdeu o sentido da sua vocação; ela deixou de cuidar das necessidades espirituais e teológicas (A Bíblia não era mais apresentada) aos fiéis. O povo não foi alimentado. O estudo da Palavra de Deus é negligenciado e o conhecimento tornou-se paupérrimo.
Pelo lado divino, graças à influência do Espírito Santo e o Sacrifício de Jesus, Deus continuou a assegurar a salvação entre o Seu povo. Esta promessa foi dada durante o período de miséria, fome, perseguição, estigmatização e foi recebida pelos fiéis como um bálsamo sobre todas estas feridas. É muito interessante notar que “o vinho e o óleo” são igualmente associados nas Escrituras ao tratamento que era aplicado sobre as feridas (Lucas 10:34). É pois muito provável que estes símbolos, por associação de ideias, veiculem dois sentidos que não se excluem um ao outro. O símbolo bíblico funciona muitas vezes desta maneira. Neste caso, representando a obra redentora de Deus, o vinho e o óleo agindo como um bálsamo sobre a ferida.
A profecia do terceiro selo visou o tempo quando a Igreja esteve tão preocupada com o seu êxito temporal que negligenciou a obra de nutrir o povo espiritualmente. Neste contexto, o cuidado económico e materialista é sugerido pelo grão medido e o dinheiro com que é comprado. A salvação comprada e vendida. Aqui também, o símbolo é duplo. Evocando ao mesmo tempo a preocupação materialista da Igreja e a fome espiritual dos cristãos; e um vai naturalmente ao lado do outro.
É o tempo onde a Igreja se afirma como um poder temporal com um território que lhe pertence, um território próprio. A Itália acaba de ser liberta do poder ariano (ano 538). A Igreja pôde portanto instalar-se sem oposição. Como é dito por Y. Congar, “as bases de uma visão hierarquia – descendência, e finalmente o poder em forma religiosa/teocrático.” (Y. Congar, L´Eglise de saint Augustin à l´époque moderne, Paris, 1970, p. 32).
Paralelamente a este sucesso temporal e político, a Igreja perdeu o contacto com o estudo da Bíblia. A instituição e a tradição suplantam pouco a pouco a referencia ao Verbo inspirado das Escrituras. Esta lição da história da Igreja fala ainda muito forte nos nossos dias e deve soar como aviso contra todas as Igrejas que se instalam. Todas as vezes que a Igreja dá prioridade à pedra e à estrutura, isto foi acompanhado da pobreza espiritual padecida e sofrida pelo povo. A força empregue aos conceitos do relativismo consomem as forças que devem ser empregues no interesse do absoluto.
O risco é ainda mais grave. A história mostra de facto um outro perigo. Quando a Igreja tem acesso aos poderes e é apoiada no plano político, a Igreja assume a autoridade como sendo a verdade. O dogma substitui a Palavra. Daqui até à intolerância e à opressão, há um passo tão pequeno que é dado sem que o povo se aperceba.
Meus amigos, creio para terminar o assunto do terceiro selo, que esta profecia foi para um tempo particular, no entanto, não se esgota nesse tempo, emerge noutros tempos e é minha profunda convicção, baseado no que foi exposto, que estamos no limiar do despontar de um novo período em que esta profecia retorna como um cavalo preto, terrível e ameaçador? Possa o estimado leitor abrigar-se com fé plena na Palavra de Deus, este é um convite de coração para coração.
“Bem-aventurado aquele que lê e bem-aventurados os que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” (Ap. 1:3)
Em Jesus.

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